sexta-feira, 29 de maio de 2015

Henrietta Lacks - A Mulher Que se Tornou Imortal [Artigo]

A fascinante história da mulher que continua viva mais de meio século após sua morte, que impulsionou a medicina moderna, que originou células imortais e como se não bastasse, originou os primeiros seres vivos evoluídos diretamente de humanos.

Em Fevereiro de 1951, uma mãe de quatro filhos, ex-lavradora de tabaco e descendente de escravos chegou ao hospital Johns Hopkins com um sintoma que a incomodava: Manchas em suas roupas íntimas. O diagnóstico não demorou e logo Henrietta estava ciente do seu câncer  cervical agressivo e aparentemente mortal. Oito meses depois, mesmo com as cirurgias e tratamento radioativo, ela morrera aos 31 anos em um dos leitos da ala do hospital reservado para negros. No entanto, nem tudo de Henrietta morreu naquela manhã de Outubro. Ela involuntariamente, deixou para trás um pedaço de si que vive até os dias de hoje.
Hipernovas: Henrietta Lacks - A Mulher Que se Tornou Imortal [Artigo]


Enquanto fazia tratamento contra o câncer no hospital Hopkins, pesquisadores se utilizavam dos pedaços dos tumores extraídos e os dividiam em pequenos cubos, que eram então embebidos em nutrientes e postos em encubadoras. As células cancerosas que receberam o nome de HeLa (de Henrietta Lacks), multiplicaram-se como nenhum outro tipo de células humanas haviam se multiplicado fora do corpo humano antes. Dobrando seu número por dia e isso não era tudo, elas aparentemente nunca envelheciam!

Sua espantosa taxa de crescimento e resistência proporcionaram um salto gigantesco na área de pesquisas com células, pois as células usadas antes delas rapidamente enfraqueciam e morriam antes que resultados pudessem ser observados. No mesmo dia em que Henrietta morreu, o chefe do laboratório de pesquisa de cultura de tecidos do Hospital Johns Hopkins, Dr. George Gey, foi à TV e segurando um tubo de ensaio cheio com células HeLa e afirmou que uma nova era de investigação científica havia começado e que um dia poderia conseguir a cura para o câncer.

De fato, as células cancerosas que vitimaram a senhora Lacks são mesmo ultra-resistentes e quando Gey percebeu que poderia enviá-las até por correio, prontamente enviou amostras de HeLa para todos os seus colegas de pesquisa pelo país. A demanda aumentou muito e as células foram produzidas em massa para depois serem enviadas à cientistas pelo mundo inteiro e até mesmo ao espaço, à bordo de um satélite não tripulado para testar a resistência de tecidos humanos à gravidade zero.

Neste mais de meio século depois da morte de Henrietta, é estimado que a massa combinada de suas células cultivadas em laboratórios de todo o mundo seja superior às que faziam parte da própria Henrietta quando ela estava viva, hoje sendo utilizadas para pesquisas contra o câncer, AIDS, ajudando a esclarecer os efeitos da radiação e substâncias tóxicas, mapeamento genético, e outras incontáveis pesquisas científicas. O Dr. Jonas Salk usou HeLa para desenvolver a famosa vacina contra a poliomielite (paralisia infantil) no começo dos anos 50. Hoje em dia essas células são tão conhecidas no meio da medicina quanto as famosas Placas de Petri e tão abundantes que chegam a infectar outras amostras, atrapalhando assim, pesquisas com outros tipos de células, sendo as vezes comparadas à micróbios.

O Dr. Gey não contou à família de Henrietta que suas células ainda viviam e o quão importante elas haviam se tornado para a ciência médica. Ele morreu em 1970, mas o segredo só foi revelado mesmo em 1975. Deborah Lacks, filha de Henrietta disse que é perturbador saber que as células da sua mãe estão vivas e espalhadas pelo mundo inteiro a serviço da ciência.

Em todos estes anos pouco se fez para homenagear a mulher que indiretamente impulsionou a pesquisa celular como nunca. o "Dia de Henrietta Lacks" é celebrado na sua cidade todos os anos em Primeiro de Fevereiro. Em 1996, motivado pela Faculdade Morehouse, em Atlanta, o prefeito daquela cidade proclamou 11 de outubro o dia de Henrietta Lacks. No ano seguinte, o Congresso aprovou uma resolução em sua memória patrocinado pelo deputado Robert Ehrlich, mas fora isso pouca coisa se tem feito para celebrar a sua imensurável contribuição para com a medicina, nem mesmo pelo Hospital Hopkins que ganhou prestígio internacional pelo trabalho de Gey com suas células.
Henrietta e seu esposo David Lacks

Deborah Sacks fica magoada ao saber que a família nunca fora consultada e pessoas ficam ricas e famosas com pesquisas relacionadas com HeLa sem a família nunca ter recebido nada por isso. A família não tem condições de contratar um advogado para representá-la e diz que já chegou a pedir ajuda ao hospital Hopkins, mas tudo o que eles fazem é dar tapinhas nas costas e mostrar-lhes a porta de saída. "Eles não se importam" diz ela.

Tentar achar pelo menos a sua sepultura de Henrietta é uma boa lição de ironia. Ela é há muito tempo, uma mulher famosa mundialmente, mas seu corpo repousa em uma cova sem identificação em um cemitério familiar perto da casa onde viveu quando era criança, agora abandonada. Ninguém, nem mesmo seus parentes sabem dizer em qual das covas está seu corpo.

Henrietta Lacks parece mesmo ter sido destinada a se tornar, talvez a pessoa mais extraordinária que já tenha passado por este planeta, não só por ter contribuído com a medicina e não só por ter dado origem à células imortais, mais também pelo fato de ter originado:

HeLa - Um novo organismo, uma nova especie!
Células HeLa

Helacyton Gartleri é o nome de espécie do primeiro organismo  que evoluiu de um humano. Helacyton Gartleri é um organismo unicelular e é imortal, pois nunca morre de velhice e pode se dividir infinitamente desde que esteja inserido em um ambiente propício (características já observadas nas primeiras amostras retiradas dos tecidos cancerosos de Henrietta). O nome curto para o Helacyton Gartleri é HeLa, óbvio.

A HeLa começou sua trajetória no câncer cervical de Henrietta que morreu em 1951. Em suma, ela foi morta pela HeLa.

Uma vez em condições adequadas a HeLa cresce à taxas fenomenais e sua descendência é constantemente enviada de laboratórios à laboratórios por todo o globo. HeLa é tão bem sucedido como um organismo que existem inúmeras mutações em cima de sua configuração original. HeLa é um organismo fêmea, visto que possui dois cromossomos X e sua reprodução se dá de forma assexuada, também possui quase a mesma informação genética de Henrietta Lacks, com algumas mutações ao longo do tempo. Podemos dizer, então que a HeLa é o organismo mais parecido conosco desde que reconhecido como uma nova espécie (o que encontra muita resistência entre alguns cientistas).

A HeLa é um organismo unicelular que evoluiu de um humano e viveu e se reproduziu por conta própria por mais de 50 anos. O organismo mantém todos os genes humanos necessários para se codificar uma pessoa, fora os que estão associados ao câncer e à característica de não envelhecimento (imortalidade). Isto significa, que em teoria, seria possível clonar a própria Henrietta Lacks à partir da HeLa!

Dados obtidos de: City Paper/Above Top Secret/Discover Magazine/Wikipédia